quinta-feira, 27 de julho de 2017

Os dois Orlandos.

Não há nada mais real do que o mundo dos sonhos, pois foi reconstruído com o desejo que assim fosse, mas não é? Há nomes que vão e vem como as ondas de um mar conhecido cujos matizes perseguem os recônditos mais secretos da alma. Sonho do sonho que volta. Lembro-me bem de uma namorada que tive na adolescência. Ela era astuta como ninguém, e vez ou outra mentia descaradamente. Porém com medo de avistar a crua realidade não tirava dos olhos as camadas que envolviam a aparente beleza. Um ex namorado vivia lhe rondando a casa, e não raramente o via subindo a rua daquela que eu sentia paixão, uma paixão de criança, que entrega todo o coração sem cobrar, sem ver, sem ir além da suposta crença no humano. O nome do ex era Orlando. Tinha os cabelos longos como os meus. Era econômico com as palavras ao falar comigo. Por inocência minha tinha-no como um bobo qualquer que vivia maltrapilho pelas ruas. Foi numa tarde de sol vermelho que a minha namorada me disse que o tal cabeludo era o seu ex namorado. Subiu das trevas um olor de enxofre, mas como não queria ver, segui adiante com o meu ledo caminhar. Certa vez, cheguei a cada dela, e lá nos fundos estava o fulano a confabular com a mãe. Lógico que aproveitaram os exs para descontrair lembrando de velhas frases românticas as quais recorrem os que foram tomados por essa eferverscência da paixão. Dalila não se fez de rogada para apressar a minha despedida. Da rua pude ouvir os ecos de gargalhadas a minha cerviz. Fui radicalmente humilhado num idade em que não aceitava, ainda, as vilanazes do espírito. Mas é cruel a indiferença, imagine a poeira que nos transformamos sendo um brinquedo dos ciumes. Tivemos um final trágico, mas essa parte da história, não ouso revelar. Após vinte anos encantei-me por uma menina aparentemente bonita, a qual eu poderia novamente sonhar com este humano contado nos filmes pelo viés da positividade, cujo final remota a felicidades possíveis. Eu não queria apenas sonhar, mas queria viver dentro do sonho. Uma menina que vibrou a corda íntima da canção de fazer arfar o pulmão. Era capaz de muita coisa, menos recuar nas minhas crenças religiosas, menos no fator que mantem os casai juntos: a fidelidade. Quando comecei a conhece-la melhor, falou-me ela de um amigo muito pessoal, a qual escreveria até a resenha para o livro dele. Achei a principio tão recorrente esse trabalho dela, que não liguei nada a nada, mas quando ela disse que o tal se chamava Orlando, acendeu-se em mim uma mácula tão profunda. Quando fui vê-lo na internet gelei ainda mais, o fulano tinha o mesmo ar do outro Orlando que me traiu. Um aspecto de safado, com uns olhos esnobes. Certa vez, A..., deu-me a senha da página dela da internet, acho que com o intuito de provocar-me quando visse a conversa dos dois. Era algo amistoso, íntimo, onde ela a chamava de meu amor, minha queridinha, minha princesinha. Meus Deus, como eu gelei por dentro. “Mais uma vez diante da Cruz, o que queres, meu Deus”? Um nome igual, a conversa igual, as suspeitas iguais...! Não pude conter o ciume como faria o frio jogador. Declarei a minha dor, e a minha desconfiança. Acho que são poucas coisas que fazem alguém recuar diante do amor, uma delas é a certeza de que se pode sofrer mais ainda no futuro. Fiz um pedido simples. “Não fala mais com ele assim”. Só isso. Ela disse que cederia e não falaria mais com o tal Orlando. Mas como o mundo da voltas, certo dia, peguei novamente a senha da página dela, e não é que os dois continuavam com a intimidade total, agora com resquícios que eu não podia ver: os dois conversavam horas pelas câmera. Recorrentes erros são traços de uma personalidade a qual cabe aos psicólogos trabalharem. O que pude fazer? Desta vez com a maturidade da idade, apenas disse que terminaria ali o nosso namoro, apesar de a mar mais do que a qualquer outra mulher que passara na minha jornada. E coloquei um final no sonho que não decolou, que não deu chance de virar a realidade que construímos. Às vezes caímos, mas há temo de levantar, de reconstruir sempre os novos sonhos. Ives vietro

7 comentários:

  1. Puxa, que história bem contada e acho bom nem passares mais perto de ORLANDOS, em sonho ou realidade,rs...abração,chica

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  2. Orlando, o furioso, uma obra de Ariosto... seja vc também o outro Orlando, o poeta , o romântico, o sonhador. Deixe aquele para as meninas sem noção.
    Um abraço

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  3. Aplausos você me prendeu do inicio ao fim, excelente, e olha estou com a Chica chega de Orlandos. abraços

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  4. Parece que o universo atrai alguns nomes, por mais que a gente queira esquece-los.Haha brincadeiras a parte maturidade é deixar ir, sair com dignidade de uma relação que não cabe mais.

    bjokas =)

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  5. É que a realidade nem sempre é o que parece.
    Bom começo de mês.
    janicce.

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  6. Logo dois? Uma narrativa excelente que nos deixa presos ao texto...
    Uma boa semana.
    Um beijo.

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  7. Quem nunca teve um coração partido?
    E dois?
    : )
    Boa semana

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